A revolução não faltou ao encontro: Luo Xu e a história da “história mundial” na China contemporânea

Em 2007, a China chegou ao quinto ano consecutivo de crescimento na casa dos dois dígitos, crescendo 11,4%, tornando-se então a quarta maior economia do mundo (a China assumiria a terceira colocação em 2009, e a segunda colocação em 2011). O sucesso da modernização chinesa tornava-se mais e mais inquestionável.

Também em 2007 o historiador chinês radicado nos EUA Luo Xu publicaria no Journal of World History o texto “Reconstructing World History in the People’s Republic of China since the 1980s” [“Reconstruindo a História Mundial na República Popular da China desde a década de 1980”], com um interessante balanço da reflexão chinesa sobre a história mundial a partir da segunda metade do século XX. Professor na State University of New York College at Cortland, Luo Xu organiza sua narrativa em dois momentos. O primeiro, que abrange a segunda metade do século XX, é centrado na figura do historiador chinês Wu Yujin, organizador de duas coleções chinesas de história mundial, publicadas uma em 1962 e outra em 1994. O segundo momento é o início do século XXI (até 2007), centrado na recepção, pelos historiadores chineses, do reconhecimento da centralidade da China anterior ao séc. XIX na historiografia ocidental recente. Vejamos com mais detalhe.

Wu Yujin formou-se em Harvard nos anos 1940, e, ao lado do jurista Han Depei e do economista Zhang Peigang (um trio chamado de Os três espadachins de Harvard), após a vitória de Revolução em 1949 tornou-se professor na Universidade de Wuhan. Dedicado à História mundial, tomou como tarefa a revisão da macronarrativa soviética da História, que reproduzia a história da sucessão dos modos de produção e correspondentes contradições de classe da história europeia (escravismo, feudalismo, capitalismo e socialismo) como referência para a escrita da história mundial. Ainda que concordasse com a importância do modo de produção e da luta de classes, Wu Yujin criticava a falta de organicidade da História soviética: as várias histórias do mundo eram simplesmente encaixadas na História da Europa. Diante disso, e fortemente influenciado por autores ocidentais como Spengler, Toynbee, Braudel, Wallerstein, Stavrianos e, acima de todos, Barraclough (mas com providenciais citações de Marx), Wu Yujin propõe um modelo baseado em duas dimensões, uma “longitudinal”, referente à evolução dos modos de produção, e outra “horizontal”, centrada nos processos de integração entre as diferentes partes do mundo. A articulação das duas dimensões gerava a história mundial, vista não como um dado, mas como o resultado da interação das diferentes sociedades do mundo – algo marcadamente visível somente a partir das grandes navegações europeias. Tal modelo foi exposto pelo autor em diversos textos, dentre os quais se destacam os quatro volumes da obra coletiva Shijie tongshi (História mundial), organizada por Wu Yujin com a colaboração de Zhou Yiliang, publicada em 1962, e que se tornaria a “história mundial oficial” nas décadas seguintes.

Capa do volume sobre História Moderna da História do Mundo (1994), organizada por Wu Yujin e Qi Shirong.

A continuidade das pesquisas de Wu Yujin e seu grupo, ao longo das décadas de 1970-1990, levou o historiador chinês a conferir uma ênfase maior ao modo de produção e desenvolvimento das forças produtivas (e menor na luta de classes, cara ao maoísmo) para explicar a mudança histórico – um economicismo compreensível no contexto da reestruturação da economia chinesa sob Deng Xiaoping. Tal reorientação foi sintetizada em uma nova síntese da história mundial organizada por Wu Yujin (com colaboração de Qi Shirong), publicada em 1994 (Shijie shi, “História Mundial”, em seis volumes), que organizava a história mundial em três períodos: idade antiga (até o século XV), idade moderna (sécs. XV-XIX), e idade contemporânea (séc. XX). Enquanto a idade antiga dá ênfase à história agrária da Eurásia (cujas formações sociais são classificadas como termos como “pré-feudal” e “pré-capitalista”, fugindo da estrutura rígida do modelo soviético), a idade moderna concentra-se na história da expansão do capitalismo a partir da Europa. A idade contemporânea, quando a história mundial em sentido pleno passou a existir, seria marcada pela coexistência e competição entre o capitalismo e o socialismo.

Luo Xu destaca que entre uma e outra síntese há, ironicamente, um reforço do eurocentrismo: a obra de 1994 dedica proporcionalmente mais páginas à história europeia do que a de 1962. A ironia se torna mais peculiar diante do fato de que a revisão radical do eurocentrismo parte não da bibliografia chinesa, mas da europeia, com a publicação dos influentes estudos de Andre Gunder Frank, Kenneth Pomeranz e R. Bin Wong, que enfatizaram a centralidade da China na economia mundial até o século XVIII e sua importância para a ascensão do capitalismo na Europa. O movimento “ReOrient”, afora as críticas ao afastamento dos autores em relação às fontes primárias, é recebido na China de modo ambíguo: enquanto alguns autores enaltecem a nova valorização do lugar da China na História Mundial, outros, como Wang Jiafan, questionam o anti-ocidentalismo de Frank e cia. como uma idealização de um passado “glorioso” da China. Luo Xu conclui o artigo refletindo sobre a ambiguidade das relações dos historiadores com o passado chinês, entre orgulho e vergonha, e o modo como estes estados de espírito ainda estruturam a questão central, qual seja, como uma economia dominante até o século XVIII foi incapaz de atingir a modernidade antes ou ao menos junto da Europa.

Asia's Return to Preeminence
Capa de ReOrient: Global Economy in the Asian Age (1998), de André Gunder Frank

Algumas questões tratadas apenas tangencialmente pelo texto merecem destaque. A primeira tem a ver com as ambiguidades da história chinesa em relação ao eurocentrismo. Se, por um lado, a Revolução Chinesa foi um dos fatores que promoveram concretamente a formação da crítica ao eurocentrismo, por outro, a organização do debate na historiografia chinesa, em sua busca pela modernização, aparentemente impediu a formação de uma reflexão “pós-colonial” (Índia) ou “decolonial” (América Latina). Enquanto na Índia os estudos subalternos se voltaram contra uma história nacionalista eurocêntrica (centrada no ideal de modernização das relações agrárias), e na América Latina a perspectiva decolonial concentrou sua crítica ao impacto da experiência colonial (e suas consequências epistêmicas), na China a retomada da centralidade econômica após as reformas do final do século XX fez com que o problema central fosse o atraso na modernização, e não a modernização em si. Certamente, as ambiguidades da modernização chinesa também se manifestam nas tensões entre diferentes posições político-intelectuais sobre o sentido da história chinesa, que orbitam o problema da adoção integral ou adaptada da modernidade ocidental (com posturas divergentes em relação à centralidade do Estado).

A segunda questão é o impacto epistemológico da divisão institucional entre uma história nacional e história mundial: a história da China fica relegada aos historiadores “nacionais”, já que os historiadores “mundiais” devem lidar com todas as histórias do mundo. Tal divisão, além de trazer o problema recorrente da relação da História Global com as fontes primárias, impede a reflexão acerca do lugar dos processos históricos locais/nacionais em seus contextos mundiais. Vale notar que tal divisão não é exclusividade chinesa, nem contemporânea: a oposição entre a história romana de Tito Lívio e a história não-romana/mediterrânica de Pompeu Trogo foi decisiva para a historiografia ocidental, topos recorrente na afirmação da História Global como um campo separado das Histórias nacionais contemporâneas.

Finalmente, a terceira questão tem a ver com o próprio eurocentrismo. O esforço em construir uma história mundial, como Luo Xu mostrou a partir do caso de Wu Yujin, não leva necessariamente à superação do eurocentrismo. Tampouco a ênfase em uma história nacional: concentrar a narrativa na China pode tanto submeter a história chinesa aos modelos ocidentais quanto naturalizar a história mundial como não-chinesa, e essencialmente ocidental. Cabe então questionar: o que, afinal, é o eurocentrismo historiográfico? O número de páginas dedicadas à Europa, o uso de modelos europeus, a citação de autores europeus, a redução da história em um país à história nacional descolada da história mundial? O exemplo da historiografia chinesa é rico para pensarmos o modo como a historiografia brasileira se relaciona com a História Global. No final das contas, tanto a modernidade quanto a revolução faltaram ao encontro com os brasileiros: lidar com isso é lidar com o lugar do Brasil na história do mundo, e o lugar do mundo na História do Brasil.

[FM]

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